Carnaval: origens da festa e aula de História

Publicado por Caroline Dähne em

Essa semana é comemorado no Brasil o Carnaval. A festividade garante um feriado para os brasileiros, que o aproveitam das mais variadas maneiras, seja pulando na avenida ou colocando em dia as séries na Netflix.

Amada ou odiada, a festa desperta muita curiosidade sobre suas origens e em quais outros países ela é celebrada. No texto de hoje eu te conto sobre isso e ainda trago dicas sobre como os professores de História podem falar sobre a celebração em sala de aula. 

Post para o instagram com o título da publicação: Carnaval.

O que é o Carnaval?

Uma festividade popular comemorada em alguns países do mundo de maneiras diferentes, mas que mantém em comum a diversão e os excessos. O Carnaval contemporâneo é uma festa tradicional cristã que antecede o período da Quaresma.

Mas afinal, qual a origem da festa?

Não existe uma única resposta para essa pergunta. Na verdade, o Carnaval atual é feito a partir de uma mistura de influências variadas. 

Sua origem, portanto, está ligada à diversas festas pagãs realizadas desde a Antiguidade mundo a fora. Dentre as mais lembradas pelos historiadores nessa influência, estão:

Saceias

Realizadas na Babilônia, os mesopotâmicos na Antiguidade Oriental tinham o costume de realizar festividades onde ocorria a subversão de papéis. Nesse sentido, durante essas festas, um prisioneiro assumia por alguns dias o papel do Rei, para por fim ser sacrificado.

Ainda na Mesopotâmia, nesse mesmo período, ocorriam festividades nas quais o Rei era agredido em frente a estátuas do Deus Marduk. A celebração de humilhação, servia como forma de demonstrar a inferioridade do governante em relação à divindade.

Saturnais ou Saturnália

Festividade realizada durante a Antiguidade Clássica na Civilização Romana, em homenagem a Saturno, Deus da Agricultura.

Elas aconteciam em dezembro e simbolizavam o fim do ano agrário, onde eram feitos agradecimentos ao deus e demonstravam as expectativas pelas colheitas do ano que viria.

A festa incluía banquetes e divertimentos, jogos de azar e bebedeiras e, principalmente, nela ocorria uma inversão de valores, na qual escravos ou pessoas mais pobres podiam se vestir como os membros da elite e participar como iguais nas festividades.

Outras festas pagãs

Não há um consenso entre os pesquisadores sobre todas as festas que tiveram influência sobre o Carnaval. Além das duas citadas, encontramos também outras festas romanas como a Lupercália (em homenagem ao Deus Pã) e greco-romanas como os Bacanais ( em homenagem ao Deus do vinho, Baco, que na Grécia Antiga era conhecido como Dionísio).

Além dessas, outros pesquisadores falam de festas comuns no Egito Antigo, como o culto à deusa Ísis. Assim como festas comuns em tribos germânicas relacionadas com a fertilidade e desejos sexuais.

Independente de qual seja a mistura que deu origem a festa que acontece contemporaneamente, o que todas essas celebrações pagãs que a inspiraram tem em comum é o agradecimento a deuses ligados à colheita, o exagero na comida, as bebedeiras, a inversão da ordem com pessoas de outras classes assumindo papéis invertidos e as orgias. 

Cristianismo

Assim como a grande maioria das festividades e feriados ligados à cristandade, o Carnaval é uma festa que foi adaptada à partir da influência de festas pagãs, para não mudar radicalmente os costumes dos recém convertidos.

A ressignificação desses festejos com a intenção de ligar ao sagrado costumes que antes eram profanos, foi realizada pela Igreja Católica durante a Idade Média.

Naquele período, o Carnaval passou a ser um antecessor da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e que é marcado pela abstenção do consumo de carne. O jejum ligado à esse período recorda a provação de Jesus pelo Diabo no deserto, segundo a tradição cristã.

Dessa forma, ao renunciar os prazeres mundanos, como o consumo de carne ou a realização de atividades que os cristãos gostam, eles estariam realizando um ato de aproximação à Jesus.

A origem da palavra

Ainda ligado a tradição cristã, a palavra vem do latim “Carnis Levale” que pode ser traduzido como “retirar a carne” ou “adeus à carne”. Nesse sentido, a palavra está relacionada com o período de penitência e abstenção do consumo de carne realizado durante a Quaresma.

Como a festa antecede o início desses 40 dias, ela funcionava como uma espécie de festejo antes da privação. Ou seja, o Carnaval seria uma data reservada para os excessos para então iniciar o período no qual a Igreja buscava realizar o controle do comportamento dos fiéis.

O Carnaval ganha o mundo

Com a expansão do cristianismo para outros continentes, a festa que já era uma mistura de costumes pagãos, sofreu mais alterações quando em contato com outras culturas. Daí a sua variedade conforme o local onde ocorre.

Na Itália

Como não poderia deixar de ser, a Itália possui até hoje comemorações do Carnaval. A influência romana antiga aparece ainda, principalmente nas fantasias. A utilização de máscaras é própria da festa nas cidades de Veneza e Viareggio, e está relacionada com a subversão de papéis que já marcavam sua tradição pagã.

Os bailes de máscaras realizados nas cidades italianas no século XIII eram restritos à nobreza, mas à partir do século XIX a festa se popularizou. A utilização de fantasias e máscaras, passou então, a garantir a liberdade para a diversão ao passo que possibilitou esconder ou trocar a identidade de que as usasse. 

Carnaval italiano contemporâneo
Carnaval italiano contemporâneo.
Disponível em: https://www.oficinadeinverno.com.br/blog/carnaval-de-veneza-conheca-o-tradicional-evento-italiano/
No Brasil

Se pensarmos no Carnaval que ocorre hoje em nosso país, ele é característico daqui. A mistura de todos essas influências da Antiguidade, Medievais e Modernas Cristãs juntamente com o estilo musical Samba criado em terras brasileiras originaram nossa tão tradicional festa popular contemporânea. Mas até chegar nesse formato atual, ela passou por diversas transformações.

O carnaval chega em terras brasileiras

Foi pelas mãos dos colonizadores portugueses que a festa chegou ao nosso país. Isso ocorreu entre os séculos XVI e XVII com a celebração do “Entrudo”, festa típica carnavalesca que consistia na brincadeira de jogar coisas em outras pessoas. Tais como: água, farinha, limões e lama. Inicialmente uma brincadeira de elite, ela ganhou as ruas e gerou diversos problemas a se tornar de certa forma até violenta. 

Imagem de um Entrudo Familiar, festejo que inspirou o Carnaval no Brasil, pintura de Augustus Earle.
Entrudo familiar
Augustus Earle, 1822

Durante o século XIX começou-se a discutir entre governantes e autoridades a necessidade de se “civilizar” a festividade e retirar essa prática que nas ruas se tornava violenta.

Então no século XX, a farinha passou a ser substituída pelo confete e serpentinas com a influência francesa do que deveria supostamente ser uma sociedade “civilizada”.

A partir de 1880 o Carnaval no Brasil passa a ser uma mistura desse carnaval de rua com o de salão de influência italiana.

A musicalidade brasileira

Não apenas a mistura de costumes deu forma ao Carnaval brasileiro, uma característica própria da nossa festividade é a sua sonoridade. É aqui que os batuques trazidos da África pelas pessoas que foram aqui escravizadas, misturados com os instrumentos musicais e influências de gêneros trazidas pelos portugueses vão originar o Samba.

Marchinhas de Carnaval

Tradicionais no início do século XX, as marchinhas foram o gênero popular de música que representou o Carnaval até a década de 1960, quando o samba-enredo ganhou destaque e o substituiu como símbolo musical da festividade.

Inspirada nas marchas militares, as marchinhas de carnaval possuíam um ritmo marcado, porém, mais acelerado acompanhado de letras com duplo sentido. A primeira marchinha foi “ó abre alas” composta em 1899 por Chiquinha Gonzaga.

Samba-enredo

As Escolas de Samba ganham protagonismo com seus sambas-enredo a partir dos anos 1960. Esse subgênero do samba foi criado especialmente para acompanhar os desfiles das  escolas, todo ano cada uma escolhe uma temática que orienta a letra da música e a criação das fantasias e carros alegóricos.

A primeira escola de samba brasileira, foi a “Deixa falar” criada em 1928, que hoje se chama “Estácio de Sá”. 

Diferenças por região

Obviamente assim como suas múltiplas influências, o Carnaval brasileiro possui diferenças de acordo com a região do país. Sendo bem comum no Rio de Janeiro e em São Paulo os desfiles de escolas de samba, em Salvador a utilização dos trios elétricos e em Olinda os bonecos gigantes e o frevo.

Como trabalhar o Carnaval em sala de aula?

Certamente existem diversas formas de o professor utilizar o Carnaval nas aulas de história. Aqui no Nas Tramas de Clio nós já escrevemos dois planos de aula que utilizam sambas como recurso didático e podem contribuir nas discussões sobre a temática:

Nesse plano de aula sobre a Identidade Nacional Brasileira, a ideia é utilizar a animação Alô Amigos, feita pela Disney em 1942. O qual, retrata o personagem Zé Carioca e sua relação com o Samba e o Carnaval.

Nesse texto, disponibilizamos alguns materiais de análise para quando o professor for trabalhar a temática da Proclamação da República. Incluindo então o samba-enredo “Liberdade, Liberdade! Abra as asas sobre nós” de 1989 da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. 

Outras possibilidades

É difícil pensar em sambas-enredo que não retratam a sociedade brasileira e/ou carioca. Em sua grande maioria, as temáticas dessas canções está ligada ao contexto vivido ou passado. 

E, nesse sentido, eles costumam trazer críticas, sejam elas culturais, econômicas ou políticas. O que possibilita uma grande variedade de materiais de análise para serem debatidos na aula de História.

Cabe então ao professor, selecionar a música que se relaciona com a temática que ele vai trabalhar e elaborar atividades de análise com os alunos. 

Referências Bibliográficas:

VERARDI, Cláudia; NOGUEIRA, Lara. Carnaval: origem e evolução. Fundação Joaquim Nabuco.


Caroline Dähne

Mestre em História, Cultura e Identidades e graduada em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Desenvolve pesquisas relacionadas a Segunda Guerra Mundial, Discursos jornalísticos, Patriotismo e Nacionalismo, Imprensa brasileira e Propagandas de guerra. Atualmente atua como professora de História na rede particular de ensino na cidade de Curitiba-PR.

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