Tiradentes: materiais de análise na aula de História

Publicado por Caroline Dähne em

Hoje, 21 de abril, é feriado nacional celebrando o Dia de Tiradentes. Um dos personagens históricos brasileiros mais conhecidos pela população, Joaquim José da Silva Xavier foi um participante da Inconfidência Mineira (1789).

Nas minhas aulas é comum os alunos questionarem porque determinados personagens da história brasileira são tratados como heróis. Principalmente na construção do saber que ocorre nos anos iniciais da Educação Básica. E então, no Ensino Médio, através de análise de diferentes fontes, costumamos questionar “a quem serve tal personagem ser elevado à categoria de herói?”.

Os materiais abaixo, são sugestões que os professores e professoras de História podem utilizar em suas aulas para demonstrar como ocorreu essa transformação do Tiradentes em Herói Nacional.

O personagem: Tiradentes

Observação: não iremos neste texto nos prolongar na explicação sobre a atuação do Tiradentes no movimento da Inconfidência Mineira. Nosso objetivo maior é focar na construção da sua imagem enquanto herói pela República Brasileira.

Existem diversas explicações para o porque o Tiradentes foi considerado tão importante na Inconfidência Mineira. Sua origem humilde, quando comparada com a grande maioria dos outros participantes; sua confissão no interrogatório, assumindo a participação no movimento; e o fato de ter sido o único punido com a morte, certamente contribuíram para sua posterior heroicização. 

Ao receber a sentença de morte por enforcamento pelo crime de “Inconfidência” (falta de lealdade com a monarca), enquanto todos os outros receberam indulgência e foram apenas exilados, Tiradentes se tornou protagonista da punição. Uma espécie de “Bode Expiatório” sob o qual recaíram as principais punições da Colônia em 1792.

Após ser enforcado no Rio de Janeiro, sua cabeça foi cortada e enviada para ser exibida em praça pública na Vila Rica (atual Ouro Preto). O restante do seu corpo foi esquartejado e distribuído em diversos lugares de Minas Gerais como exemplo do que acontecia com quem desafiava a Coroa Portuguesa.

A criação do feriado de Tiradentes

Embora durante o Império e início da República, existam evidências de que a data já era celebrada em alguns lugares e instituições do Brasil. A criação de um feriado nacional específico para a celebração do Dia de Tiradentes, ocorreu durante a Ditadura Militar. Quando no dia 09 de dezembro de 1965, através da Lei n. 4.897, foi concedido a ele o título de “Patrono da Nação Brasileira”.

Portanto, essa construção do Tiradentes como herói nacional é anterior a criação do feriado, mais precisamente ocorreu durante o início do Brasil República. 

Do anonimato à Herói Nacional

A Proclamação da República no Brasil certamente não foi um movimento popular. Como nos lembra o historiador José Murilo de Carvalho, numa expressão utilizada pelo jornalista Aristides Lobo na época, a população assistiu os acontecimentos “bestializados“. Ou seja, sem saber o que estava acontecendo e muito menos tendo participado desse momento. 

Na República que se nascia, sem o apoio popular e com um clima de intensa instabilidade política e econômica, se tornava essencial construir um sentimento de comunidade, de Identidade Nacional.

Para isso, o governo iniciou uma ampla ação em busca da “Construção da Nação Brasileira” e de elementos com os quais a população se identificasse. Na busca pela criação de um herói nacional, Tiradentes se revelou como a figura perfeita para personificar a República.

De origem relativamente humilde, em comparação com os outros participantes do movimento de Inconfidência Mineira; militar que lutou pela independência do Brasil do domínio Português e mártir. Tiradentes foi então o escolhido para representar a “essência” do povo brasileiro.

A partir de 1890, sua figura estampou quadros e estátuas escolhidas para enfeitar os prédios públicos republicanos que estavam sendo construídos, e os livros que seriam lidos pela nação.

Tiradentes: Materiais para ser utilizados em sala de aula

Existem diversos materiais que podem ser analisados na aula de História e evidenciar essa construção do Tiradentes enquanto herói da nação. Abaixo, colocamos algumas sugestões e dicas de como podem ser trabalhadas:

Obra: “Tiradentes esquartejado” de Pedro Américo (1893)

O pintor brasileiro Pedro Américo certamente é um velho conhecido dos professores de História. Pintor oficial do Brasil Império, ele retratou diversos momentos da história brasileira a pedido da monarquia. Com a Proclamação da República, ele se viu perdendo sua posição e a ligação com o extinto regime fez a procura pelos seus quadros diminuírem.

Numa tentativa de recuperar seu posto no novo governo, Pedro por iniciativa própria retratou a figura de Tiradentes, envolta em diversas representações. Como é possível ver na imagem abaixo:

Na imagem, o corpo de Tiradentes aparece esquartejado e distribuído ao lado de um crucifixo em cima da forca.
AMÉRICO, Pedro. Tiradentes Esquartejado. 1893.
Óleo sobre tela (262 X 162 cm). Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora- MG
Como usar em sala de aula:

Ao trabalhar essa pintura em sala de aula, comente com os alunos a associação que é feita entre a imagem do Tiradentes com a figura religiosa de Jesus Cristo. Não se sabe exatamente como era a aparência do inconfidente, já que as representações sobre sua figura são todas posteriores a sua morte. A representação feita por Pedro Américo, é característica das pinturas sobre o personagem, inclusive desde a época do Império: 

  • Cabelos e barbas longas em tons de ruivo, para se assemelhar às representações iconográficas de Jesus Cristo. 
  • O Crucifixo ao lado do corpo e a disposição dos membros no palanque da Forca que se assemelha a um altar.
  • Criação da imagem de mártir associada à crueldade da Coroa Portuguesa.

A pintura, carregada de elementos que se relacionavam com a questão religiosa cristã, aliada à ideia de que Tiradentes teve esse fim justamente porque o movimento da Inconfidência foi denunciado por um traidor (assim como Jesus traído por Judas), reforça a tentativa de aliar o discurso sobre o herói brasileiro com a figura religiosa.

No entanto, apesar do esforço, a tentativa de Pedro Américo de cair nas graças da república não foi bem sucedida. A pintura, ao retratar o herói suplicado, era muito diferente das formas que outros pintores retrataram seus personagens, e não foi muito aceita pela opinião do governo.     

Cartilha: “A Juventude no Estado Novo” criada pelo DIP (1937/1945)

O Departamento de Imprensa e Propaganda elaborou diversos materiais que serviam para a criação da propaganda getulista durante a Era Vargas. Dentre esses materiais, está a cartilha destinada às crianças brasileiras: “A Juventude no Estado Novo”.

Repleta de desenhos e frases que buscavam criar a imagem de Vargas como o “líder da nação” e criar uma identidade nacional, a cartilha também faz referência ao Tiradentes como herói nacional.

Na imagem, um grupo de crianças, olha estátuas, dentre elas a de Tiradentes.
A Juventude no Estado Novo, DIP. Acervo CPDOC.

Legenda: “Anima-me a certeza que toda esta multidão entusiástica, desde os jovens estudantes até as suas classes trabalhadoras e industriais é capaz de erguer comigo os alicerces da construção do Brasil Novo, que juramos empreender. Mas esse esforço que nos empenhamos em realizar, e estamos realizando, não se pode desprender das tradições e dos fatos predominantes de sua história. Haveremos de engrandecer o Brasil, para sermos dignos da herança que nos legaram nossos antepassados.”

Como usar em sala de aula:

Ao trabalhar essa imagem da cartilha em sala de aula, é importante analisar com os alunos tanto os elementos visuais: busto do Tiradentes e outros heróis nacionais (José Bonifácio e Benjamin Constant); as bandeiras nacionais; as cores da bandeira presentes na moldura da legenda; a postura das crianças em admiração às estátuas. 

Quanto aos elementos textuais, como a frase “Haveremos de engrandecer o Brasil, para sermos dignos da herança que nos legaram nossos antepassados”, que coloca uma função para os leitores como uma responsabilidade enquanto brasileiros.

É importante ressaltar a função educativa da cartilha e a sua contribuição com o fortalecimento do sentimento de Identidade Nacional durante o governo Vargas.

Se você ficou curioso e quer saber mais sobre a cartilha e como utilizá-la nas suas aulas de História, o link abaixo traz diversas dicas à esse respeito:

Trechos de livros:

Abaixo trazemos também alguns trechos de livros (alguns deles utilizados em questões de vestibulares ou ENEM) que podem ser utilizadas para análise com a turma:

“Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto a seus heróis e não possua seu panteão cívico.”

CARVALHO, J. M. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 55.
Como usar em sala de aula:

Nesse trecho, o professor pode ressaltar o motivo de governos criarem a figura de heróis. E questionar aos alunos, sobre quais eram os interesses do governo republicano ao utilizar o Tiradentes como um herói nacional.

“[…] Existia uma base real para isso. Há indícios de que o grande espetáculo, montado pela Coroa portuguesa para intimidar a população da Colônia, causou efeito oposto, mantendo viva a memória do acontecimento e a simpatia pelos inconfidentes. A atitude de Tiradentes, assumindo toda a responsabilidade pela conspiração, a partir de certo momento do processo, e o sacrifício final facilitaram a mitificação de sua figura, logo após a Proclamação da República. O 21 de abril passou a ser feriado, e Tiradentes foi cada vez mais retratado com traços semelhantes às imagens mais divulgadas de Cristo. Assim se tornou um dos poucos heróis nacionais, cultuado como mártir não só pela direita e pela esquerda como pelo povo da rua.” 

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2013. p. 103.
Como usar em sala de aula:

Já esse trecho, pode ser associado à análise do quadro de Pedro Américo, e a questão do Enem que colocamos abaixo. Demonstrando essa associação entre a questão de aproximação à uma representação religiosa (Jesus Cristo) com fins de criar uma aceitabilidade do exemplo cívico.

“Tudo isso calava profundamente no sentimento popular, marcado pela religiosidade cristã. Na figura de Tiradentes todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independência ou a república. Era o totem cívico. Não antagonizava ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente do futuro. Pelo contrário, ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura. A liberdade ainda que tardia.”

CARVALHO, J. M. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 68.
Como usar em sala de aula:

Nesta outra frase do historiador José Murilo de Carvalho, assim como na anterior do historiador Boris Fausto, é possível relacionar a figura de Tiradentes com a questão religiosa. Além disso, essa frase reforça o aspecto da liberdade. O professor então, pode relacionar a luta de Tiradentes pelo fim do domínio portugues, com a implantação do regime republicano no país. Afinal, este, finalmente conquistava essa liberdade tão esperada. 

Tiradentes no ENEM:

Enem (2017) 

Para trabalhar essa questão com seus alunos do Ensino Médio, ressalte o comando da questão que pede para demonstrar ao que o texto, escrito por Machado de Assis, associa em relação ao momento de transição do Império para a República.

Demonstre para os alunos que o texto relaciona a figura de Tiradentes com a de Jesus Cristo, portanto demonstra a ligação com o cristianismo. 

Já em relação ao período solicitado no comando da questão, relembre aos alunos a construção do Tiradentes enquanto herói nacional durante o início do Brasil República. Portanto, demonstrando uma tentativa de criar uma cultura cívica através da identificação pública com o personagem e a história do país.

A resposta correta dessa questão é a alternativa A.

Pontos importantes para ressaltar com os alunos:

Não esqueça de demonstrar como foi esse processo de construção da figura de Tiradentes enquanto herói nacional. Procure ressaltar as narrativas que foram criadas a esse respeito e a quais interesses elas atendiam.

Lembre-se também de ressaltar que apesar da criação da imagem de um mártir pela liberdade brasileira, o movimento da Inconfidência Mineira surgiu por questões econômicas e esses interesses não podem ser esquecidos.

Conclusão

Evidentemente, essa temática não precisa ser discutida nesta semana em específico, mas é sempre importante ressaltar com os alunos o significado dos feriados que tanto esperamos pelo merecido descanso, mas que contribuem para a consolidação de uma determinada visão da História. E que em algum momento, pessoas ou governos foram beneficiados por essa visão.

Não se esqueça de nos contar se utilizar nossas dicas em suas aulas!

Até breve!

Referências Bibliográficas:

AIRES, José Luciano de Queiroz. Pintando o Herói da República: A construção do imaginário mitificado de Tiradentes e o Ensino de História. ANPUH- XXV Simpósio Nacional de História. Fortaleza, 2009. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548772005_5e30640dc306e76bd19608db4388dd1c.pdf Acesso em 17/04/2021.

AMÉRICO, Pedro. Tiradentes Esquartejado. Óleo sobre tela (262 X 162 cm). 1893.

BRASIL. Departamento de Imprensa e Propaganda. A Juventude no Estado Novo: textos do Presidente Getúlio Vargas, extraídos de discursos, manifestos e entrevistas a imprensa. Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/arquivo-pessoal/GV/impresso/juventude-no-estado-novo-textos-do-presidente-getulio-vargas-extraidos-de-discursos-manifestos-e-entrevistas-a-imprensa-a Acesso em: 17/04/2021.

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2013.


Caroline Dähne

Mestre em História, Cultura e Identidades e graduada em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Desenvolve pesquisas relacionadas a Segunda Guerra Mundial, Discursos jornalísticos, Patriotismo e Nacionalismo, Imprensa brasileira e Propagandas de guerra. Atualmente atua como professora de História na rede particular de ensino na cidade de Curitiba-PR.

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