La Révolution: inspirações históricas

Publicado por Caroline Dähne em

Foi só eu entrar em sala de aula na semana passada que a pergunta ecoou: “Professora já assistiu a série La Révolution?”. 

É inevitável, quando alguma série nova é lançada e tem relação com História, os alunos sempre querem saber o que achamos sobre ela.

Com A Revolução, em português, não foi diferente. Ainda mais nas turmas em que eu estou trabalhando a Revolução Francesa como conteúdo nesse trimestre.

Assim, depois de tantas recomendações e comentários dos alunos. Resolvi assistir a série e trazer minhas considerações sobre quais foram as inspirações históricas de “La Révolution”. 

Montagem do Instagram para ilustrar e divulgar o texto.
Aviso: o texto contém Spoilers da Série!

La Révolution

Composta de 8 episódios, que duram em média 40 ou 50 minutos cada, a série francesa foi produzida e disponibilizada pela Netflix em outubro desse ano. 

Apesar da temática da Revolução Francesa estar presente em todos os momentos da trama, a série não é um documentário. Ou seja, não tem nenhuma preocupação com a veracidade das informações transmitidas.

De acordo com o diretor Aurélien Molas, em entrevista para o site francês France-3, o gênero da série é o de Ficção Ucronia. Conhecido também como História Alternativa. Assim, esse gênero literário é caracterizado por ser baseado em fatos reais. No entanto, seu direcionamento é diferente do histórico. 

Como ressalta Santos e Ribeiro (2014), o gênero da História Alternativa, pensa um novo caminho para o passado, reelaborando a História.

A Revolução Francesa encontra The Walking Dead

No enredo, em 1787 na França teria surgido uma epidemia. Esta, causada por um vírus que atingiu apenas os nobres franceses. Então, tornando seu sangue da cor azul e trazendo uma enorme fome: pela população do Terceiro Estado.

E é aí que os nobres se transformam em uma espécie de mortos-vivos que se alimentam de sangue humano. O que, nesse sentido, acaba gerando uma série de ataques da nobreza à população mais pobre e a Burguesia.

Consequentemente, gerando o movimento Revolucionário. O qual, buscava acabar com a epidemia e o abuso do poder das classes nobres.

Claramente, a trama se encaminha para uma história ficcional, mas que a todo momento se relaciona com discussões que realmente permearam o contexto da Revolução Francesa.

Inspirações Históricas em La Révolution

Embora cheia de elementos ficcionais, o plano de fundo da série continua sendo a Revolução Francesa. Desse modo, vários elementos que influenciaram o movimento são retomados na trama. Que utilizando de várias metáforas, cria uma série de críticas sociais.

Frases sobre História

Em cada episódio, podemos perceber na narração da personagem Madeleine de Montargis, várias frases de efeito. Nesse sentido, elas buscam relacionar as passagens da série com a História real da Revolução Francesa.

Dentre elas estão:

“A História é um conjunto de mentiras combinadas.”

Napoleão Bonaparte, tradução conforme citada na série Le Révolution

Essa frase é utilizada logo na abertura do primeiro episódio. É através dela, que a narradora constrói a ideia de que aquilo que sabemos sobre a Revolução Francesa, contada nos livros de História, seria uma mentira. Daí a importância, seja enquanto professores de História ou simplesmente espectadores da série, de perceber que já se trata de uma ficção. 

Em vários episódios essa ideia é retomada, falando sempre que vários fatos (nesse caso, os elementos ficcionais) teriam ficado de fora das narrativas sobre a Revolução Francesa. Isso porque, as pessoas não seriam capazes de acreditar naquilo que na trama, teria “realmente acontecido”.

Frases sobre a Revolução:

Na frase abaixo, dita por um dos personagens, o aspecto revolucionário do movimento que começa a se organizar entre a população mais pobre, ao longo dos episódios é novamente ressaltado:

“O que a história me ensinou é que séculos são moldados por quem não tem medo de morrer por uma causa ou de lutar por justiça.”

La Révolution, Netflix, 2020.

Outra frase que aparece diversas vezes, em episódios diferentes, e às vezes até com outras palavras mas mantendo o mesmo sentido, é:

“Sim, nossos inimigos são ricos e poderosos. Mas vou contar um segredo: eles têm medo de nós. Pois sabem que, se nos unirmos, somos muito mais do que eles.”

La Révolution, Netflix, 2020.

Assim, nela, o personagem Joseph Guillotin, ressalta que os nobres, apesar do poder, são em menor número na população. E que nesse sentido, uma população unida e com consciência, seria capaz de se livrar dessa sociedade desigual.

Além das palavras: as metáforas em La Révolution

Mais do que frases de efeito que procuram ligar a ficção à realidade. A série utiliza de diversos elementos que estabelecem metáforas entre o enredo e a Revolução Francesa. Dentre elas estão:

Guillotan: o personagem

O Médico Joseph Guillotin, numa pintura de época e ao lado o personagem inspirado nele. Cena da série La Révolution, Netflix, 2020.
Joseph Guillotin, Musée Carnavalet, Paris, France. Personagem Guillotin, ator: Amir El Kacem, La Révolution, Netflix, 2020.

A série La Révolution, traz como um dos seus principais personagens, o médico Joseph Guillotin. Um médico que inicia a investigação de um assassinato e acaba descobrindo a Epidemia que estava transformando a nobreza.

O personagem da série foi inspirado num personagem real. Historicamente, Joseph-Ignace Guillotin, foi um médico francês, que apesar de ser contra a pena de morte, sugeriu a utilização de um método mecânico para a decapitação: a Guilhotina. Com ele, se esperava uma morte mais rápida e indolor aos criminosos.

Além disso, Guillotin também foi conhecido por sua participação política, inclusive integrando os deputados da Assembleia Constituinte entre 1789 e 1791.

Cortar as cabeças

Outra metáfora com raízes históricas é o ato de cortar as cabeças dos nobres. Na série, La Révolution, o corte da cabeça utilizando uma espada mata os mortos-vivos. Quem é acostumado com histórias de zumbis, seja nos filmes ou na literatura, sabe que normalmente esse é o método mais utilizado para acabar com a vida desses seres.

Divulgação da série La Révolution, Netflix, 2020. Na imagem, há uma cabeça decapitada com sangue azul escorrendo.
Divulgação Netflix, 2020. Disponível em: https://observatoriodeseries.uol.com.br/netflix/ 

Porém, na série, isso vai além. Muito mais do que a forma tradicional de aniquilar “mortos-vivos”, o corte das cabeças está associado à prática do uso da Guilhotina nas execuções durante a Revolução Francesa.

Destino que inclusive findou a vida de Luís XVI e Maria Antonieta, os monarcas franceses que estavam no poder na época da Revolução.

A simbologia das cores:

Obviamente a escolha pelo “sangue azul” para retratar a nobreza não é aleatória. Na série, La Révolution, a coloração é resultado de um dos sintomas da epidemia que atingia essa classe social.

Ao longo da História, a cor azul esteve associada ao poder da monarquia. Como durante a Idade Média, no governo do rei francês Luis IX, em que a cor azul passou a representar a realeza, fosse nas roupas ou nos brasões. Á princípio a distinção política pela cor, estava associada à dificuldade de se obter essa coloração, e consequentemente, ao seu custo.

“Sangue Azul”

Segundo o etimologista Deonísio da Silva, para o site Aventuras na História, a expressão “sangue azul” surgiu na Espanha no século XI. No período, ela era utilizada para diferenciar os nobres espanhóis dos Mouros que chegavam na região.

Enquanto os nobres exibiam peles claras, nas quais era possível ver as veias azuis. Os estrangeiros, por trabalhar várias horas expostos ao sol, possuíam a pele bronzeada, na qual não era possível visualizar a tonalidade azul das veias.

“Sangue de França”

Já na França, inicialmente, a expressão não estava associada à cor, mas sim à hereditariedade. De acordo com a historiadora Arlette Jouanna, o “Sangue de França” estabelecia uma hierarquia moral e social. Aqueles que possuíam uma “pureza” sanguínea eram vistos como “superiores”. Portanto, dotados de virtude, o que os tornaria legítimos para o exercício do poder.

Enquanto que os “mestiços” herdariam pelo sangue a “propensão aos vícios”, e portanto, a inferioridade.

Nesse sentido, o sangue era muito mais do que apenas um elemento de distinção social. Ele representava uma herança, na qual a “essência do ser” era transmitida aos seus descendentes. O que tornava os membros da família real, “bem nascidos” e reafirmava o Direito Divino dos Reis. Especialmente quando relacionado com o ritual cristão do “Sangue de Cristo”.  

Bandeira: azul sangue nobre + vermelho sangue do povo

Ainda associada à questão das cores, nos episódios finais as cores dos sangues que distinguiam saudáveis de infectados, e consequentemente, “povão” de nobreza, foram utilizadas numa metáfora à bandeira francesa.

Em uma cena em que, a carnificina da revolução foi grande, nobres e população ficaram feridos, num cenário cheio de neve no chão. Como na imagem abaixo:

Cena da série La Révolution, Netflix, 2020. No chão, coberto de neve, há um corpo de uma camponesa, cercado de sangue vermelho. Ao lado há um corpo decapitado de um nobre, cercado de sangue azul.
Cena do episódio 8, La Révolution, Netflix, 2020.

Os panos brancos utilizados para cobrir os corpos dos mortos, manchado pelas cores dos sangues, passou então a ser utilizado pelos revolucionários como sua bandeira:

Cena da série La Révolution, Netflix, 2020. A personagem líder dos revolucionários, cobre os mortos com um pano manchado pelo sangue azul dos nobres e o sangue vermelho do povo.
Cena do episódio 8, La Révolution, Netflix, 2020.

A bandeira francesa:

Litografia de 1830 que mostra a transformação da bandeira francesa.
Léon Coignet, The French Flag, litografia, julho de 1830. Disponível em: https://br.ambafrance.org/A-bandeira-francesa

A bandeira dos revolucionários na série La Révolution, é inspirada na atual bandeira francesa, adotada como oficial nas Constituições de 1946 e 1958. Anteriormente, o modelo já havia sido utilizado, entre 1794 e 1815 como símbolo oficial da República Francesa.

Conhecida como bandeira tricolor, ou “Bleu, Blanc, Rouge”, suas cores representam: o Branco da Monarquia, e o Azul e Vermelho das cores da cidade de Paris. 

A imagem final em La Révolution

Para quem está acostumado com as pinturas comumente associadas à Revolução Francesa, é impossível não lembrar do quadro de Eugène Delacroix, quando assistimos a última cena da primeira temporada da série.

Na cena, a líder dos rebeldes, está sentada em um cavalo branco, segurando a bandeira manchada pelo sangue de nobres e da população. Atrás e ao seu redor, estão o restante dos rebeldes, em marcha para a Revolução. Como se observa na imagem abaixo:

Cena da série La Révolution, Netflix, 2020. A líder dos revolucionários está sentada em um cavalo branco e segura a bandeira francesa. Ela é seguida pelos outros revolucionários.
Cena do episódio 8, La Révolution, Netflix, 2020. Disponível em: https://tellyvisions.org/2020/09/14/netflix

A simbologia dessa cena, resgata a pintura feita em 1830 pelo francês Eugène Delacroix. Que retratou uma mulher, simbolizando a Liberdade, carregando a bandeira tricolor francesa e guindo os rebeldes.

Como usar La Révolution na aula de História?

Seja nas referências utilizadas, nos cenários onde foi gravada, nos figurinos cuidadosamente elaborados, La Révolution, fez a lição de casa e se inspirou na História Francesa. Mas, daí esperar que ela seja um retrato fiel da Revolução Francesa é se enganar.

Certamente, todos que são professores de História ou historiadores sabemos que uma série ou um filme, são produtos culturais de seu tempo. Portanto, é comum que tragam elementos de entretenimento, ficção, ou até mesmo propaganda nos seus enredos.

Se os seus alunos, como os meus, estão questionando sobre a série, é bacana de refletir com eles sobre essa simbologia. Ressaltando sempre que se trata de uma obra ficcional, apenas com inspirações históricas.

E você, percebeu algum outro detalhe que eu deixei passar? Me conte nos comentários o que achou da série ;)

Séries e História

Gostou do texto? Temos aqui no site outras publicações onde também analisamos inspirações históricas em outros seriados. Você pode conferi-los nos links disponíveis abaixo:

Referências Bibliográficas:

SANTOS, Michelle dos; RIBEIRO, Isabella Ferreira Viana. Duas Histórias especulativas contemporâneas: baseadas em fatos reais!.  

JOUANNA, Arlette. O imaginário do sangue e de sua pureza na Antiga França. Tempo- Revista do Departamento de História da UFF, 2011, p. 21+. 


Caroline Dähne

Mestre em História, Cultura e Identidades e graduada em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Desenvolve pesquisas relacionadas a Segunda Guerra Mundial, Discursos jornalísticos, Patriotismo e Nacionalismo, Imprensa brasileira e Propagandas de guerra. Atualmente atua como professora de História na rede particular de ensino na cidade de Curitiba-PR.

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