Novo Ensino Médio e as Ciências Humanas

Publicado por Jessica Leme em

Novo Ensino Médio… Certamente muitas dúvidas têm surgido em relação à nova organização do currículo para esse segmento. Isso levando em conta que nem todos os professores tiveram como acompanhar as discussões e mudanças que chegam a partir de 2021 às escolas públicas e particulares. Sendo estas tendo sido feitas por amostragem de profissionais ou através de questionários genéricos, deixando a discussão democrática muito a desejar.

Porém, antes de entrarmos no assunto propriamente dito, precisamos levar em conta as discussões feitas nos últimos anos para que fique claro que essa política vem sendo gestada a  algum tempo e agora chega até os bancos escolares.

O caminho até o Novo Ensino Médio:           

As discussões sobre a necessidade e a possibilidade de mudanças no Ensino Médio vêm desde os idos de 2013 (ainda governo Dilma). Nesse sentido, ressaltando pontos negativos do Ensino Médio atual, dando ênfase à evasão escolar, causadora da chamada geração “nem-nem”, jovens que nem estudam e nem trabalham.

Muito se discutiu sobre o que chamaria a atenção dos jovens na faixa etária do Ensino Médio o que os faria permanecer na escola. Assim, tendo sido considerando o currículo em vigor descolado da realidade atual, desinteressante e pouco útil ao mercado de trabalho.

Ocupações das Escolas

Nesse sentido, as discussões se seguiram e a comunidade escolar reagiu em 2016, nas famosas ocupações que se desenrolaram por todo o país. Indo contra as propostas de reforma assim como iam contra a reorganização das escolas.

A nova organização dos prédios escolares proposta a princípio no estado de São Paulo pretendia delimitar onde haveria apenas aulas para o Ensino Médio e outras apenas para o Ensino Fundamental. Assim, obrigando vários alunos a migrarem de suas escolas e alterarem suas rotinas.

fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mobiliza%C3%A7%C3%A3o_estudantil_no_Brasil_em_2016

As ocupações tomaram grandes proporções, trouxeram à tona o protagonismo dos jovens na luta por uma escola pública de qualidade, denunciaram o sucateamento e a desvalorização dos professores. Assim, ressaltou se também o papel da escola para com a comunidade no desenvolvimento do cidadão. Foi um movimento sem violência que marcou aquela geração de alunos do Ensino Médio, que conseguiram conter a proposta do governo naquele período.

Em função desta mudança no contexto educacional, imposta – vale reforçar – via MP, ocorreram manifestações, seja por parte de especialistas da comunidade acadêmica (com a organização de manifestos em forma de documentos) seja por parte de alunos secundaristas (que ocuparam, em protesto às mudanças propostas, a sede de mais de mil escolas), marcaram protestos contra a reforma do EM e foram conquistando espaço de debates por todo o país, contanto com a participação dos que eram favoráveis às propostas do governo e daqueles que se posicionam contrários às mudanças. (CORRÊA; GARCIA; p. 606, 2018).

BNCC

Mesmo após as ocupações de 2016, as discussões para a mudança no currículo do Ensino Médio permaneceram alinhadas à nova BNCC. No ano de 2017, governo Temer, a BNCC estava em vias de ser concluída e com ela a discussão do novo Ensino Médio.

Propaganda veiculada em Janeiro de 2017

Nesse sentido, ainda naquele ano ficaram estabelecidas as mudanças, que como vamos aprofundar nesse artigo. Destaca – se a inserção dos chamados Itinerários Informativos, o aumento da carga horária do ensino médio já prevendo o ensino a implementação do ensino integral. Assim como as disciplinas que foram mantidas sem alterações em sua carga horária, como português, matemática e inglês. O Novo Ensino Médio então ficou estabelecido pela Lei n.º 13.415 de 2017, tendo sido anteriormente pensado a partir da MP n° 746 de 2016.

Como os teóricos enxergam o Novo Ensino Médio?

Assim, se para a comunidade escolar o Novo Ensino Médio chega com ares de novidade absoluta, onde boa parte dos professores não entende quais são as reais mudanças. Para a comunidade de pesquisadores da área da educação, este é um tema já à certo tempo lido, pesquisado e principalmente questionado.

Destaco a seguir alguns pontos de vista de pesquisadores voltados a essa temática, sobre a enorme mudança trazida para o Ensino Médio e suas opiniões sobre.

Segundo SOUZA; GARCIA; (2020), em artigo recém lançado, houveram tentativas de vetar o desenvolvimento do Novo Ensino Médio. Buscando principalmente mais tempo para o debate social, dando mais espaço e informação para a comunidade escolar. Além dos alunos terem ferramentas para a discussão do que seria interessante e viável para essa nova proposta, porém, isso não ocorreu.

Umas das mudanças destacadas se refere a carga horária que a princípio era de 800 horas divididas em 200 dias letivos e passa agora progressivamente a 1400 horas. O que irá ocorrer de forma gradual transpondo a escola para o sistema de ensino integral.

Ao se tratar de Ensino Médio, não podemos deixar esquecer a característica básica do aluno da rede pública. Este aluno é um jovem trabalhador e diante de uma escola integral possivelmente terá de escolher entre permanecer nos bancos escolares ou ser obrigado a ingressar no mercado de trabalho.

Disciplinas

 Em relação às disciplinas que ficam estabelecidas para o Novo Ensino Médio, segue se o que pede a BNCC:

De acordo com a Lei, a BNCC terá que definir “os direitos e objetivos de aprendizagens do ensino médio” em concordância com as diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE) para atender à quatro áreas do conhecimento, a saber: 1) as linguagens e suas tecnologias, 2) matemática e suas tecnologias, 3) ciências da natureza e suas tecnologias e 4) ciências humanas e sociais aplicadas, conforme ficou estabelecido no artigo 3º da Lei 13.415/2017, acrescentando no §7º a seguinte proposta: “Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais” (BRASIL, 2017) apud (SOUZA;GARCIA;2020).

Resumindo, as escolas deverão seguir a Base Nacional Comum Curricular em relação ao currículo básico para o Ensino Médio, sendo este igual para todas as escolas do país. Em relação aos chamados Itinerários Formativos cada escola irá desenvolver seus projetos. Levando em consideração sua realidade e necessidades locais, podendo abranger ou não todas as áreas propostas.

Sobre os itinerários formativos, conforme disposto pelo artigo 4° da Lei da Reforma do ensino médio, Bodião (2018, p.114) alerta quanto ao risco que o termo “relevância para o contexto local” apresenta para a qualidade da educação brasileira, pois, segundo o autor, “poderá implicar em uma redução dos conteúdos curriculares que se ofertarão para os estudantes”, empobrecendo, assim, o currículo ofertado. Além disso, esse mesmo termo permite que gestores “excluam itinerários formativos compostos pelos conteúdos escolares que lhes faltam profissionais” (BODIÃO, 2018, p. 114) apud (SOUZA; GARCIA; 2020).

Realidade escolar

Diante da realidade das escolas públicas brasileiras, onde sabe se da falta de profissionais de várias áreas, a citação anterior faz muito sentido. Em escolas onde não existam profissionais de áreas específicas não haverá oferta desse conteúdo em forma de Itinerário.

Além da falta de profissionais para que possam ser pensados Itinerários Formativos diversos. Também existe a questão orçamentária, quanto cada escola irá dispor financeiramente para a elaboração de determinados Itinerários Formativos? Pensando na aplicabilidade das propostas de Itinerários que forneçam conhecimento nas áreas de tecnologia e ciência.

Notório Saber

Outros pontos questionáveis da reforma do Ensino Médio são tratados pelas autoras, como o notório saber. Cujo intuito é permitir que profissionais que não sejam formados em licenciatura possam lecionar, levando em consideração apenas um conhecimento prévio sobre determinado assunto. Isso não leva em consideração o conhecimento de um professor no que concerne à psicologia da educação, à metodologia de ensino daquele conhecimento, entre outros fatores preponderantes a um bom desenvolvimento desse aluno.

O notório saber irá desestimular ainda mais a carreira docente, desvalorizando as formações acadêmicas da área. Além de não favorecer para a luta por salários dignos para profissionais da área de educação.

Muitos outros pontos devem ser questionados sobre o que ficou estabelecido para o Novo Ensino Médio. Mas nesse artigo quero focar na área a qual esse site se propõe apoiar, as Ciências Humanas.

Qual o espaço das Ciências Humanas nesse novo modelo?

Como vimos até aqui, o Novo Ensino Médio vai trabalhar a partir da BNCC que estabelece o currículo básico para os três anos e os chamados Itinerários Formativos, onde abrange a Ciências Humanas Sociais e Aplicadas.

Mas como será?

Como o próprio nome já diz a situação é NOVA. Ou seja, nem todos os estados e redes privadas já estão com os planos para o Novo Ensino Médio prontos. Diante disso, vou utilizar a proposta ofertada pelo Estado de São Paulo, como exemplo:

A carga horária para o Estado de São Paulo no que concerne o Ensino Médio será de 3.150 horas (3 anos). Dentre essas, 1.800 horas serão para formação geral básica, outras 1350 serão destinadas aos Itinerários Formativos.

No que concerne os Itinerários Formativos, teremos projetos interdisciplinares podendo abranger duas áreas para sua formação. Como, por exemplo, Ciências Humanas  unida a Ciências da Natureza.

A proposta pretende aprofundar os componentes da formação geral básica dentro dos itinerários formativos. Estes por sua vez devem ser pensados a atender quatro pilares, eles são o Empreendedorismo, Processos Criativos, Mediação e Intervenção Cultural e Iniciação Científica.

A implementação do Novo Ensino Médio teve inicio neste ano letivo na rede pública do estado de São Paulo, aos alunos pertencentes ao primeiro ano do Ensino Médio de 2021. Nada se alterou, a carga horárias das aulas permaneceu a mesma para todas as disciplinas. Tendo o adendo da carga horária destinada ao projeto INOVA, já implantado na rede desde 2020, oferecendo aulas de tecnologia, projeto de vida e eletivas.

2022

A partir do ano de 2022, os alunos que estão matriculados na segunda série do Ensino Médio, terão novidades em sua grade de aulas. Por isso a partir do segundo semestre já no ato da rematrícula os alunos terão de optar sobre quais Itinerários Formativos irão cursar no ano seguinte.

É nesse momento que a área das Ciências Humanas se dilui dentro dos chamados Itinerários Formativos. Onde o conteúdo das áreas de História, Geografia, Filosofia, Sociologia irão ser trabalhados de forma integrada a outras áreas e não necessariamente terão aprofundamento específico.

O material disponibilizado na escolha dos livros do PNLD ( você pode conferir nesse link) deste ano. Deixa mais claro como o material já foi organizado pensando no novo formato de Ensino Médio … Uma diluição do conhecimento. Outro fator complicado para se efetivar na prática é o trabalho em moldes de projetos. A formação dos professores não os direciona para tais práticas o que acabará por dificultar sua aplicação e resultado.

Como vimos até aqui as escolas terão que oferecer no mínimo dois Itinerários Formativos. Não necessariamente toda escola irá disponibilizar itinerários que abranjam as Ciências Humanas. Todos os documentos garantem que nenhuma área de conhecimento ficará afetada em questão de carga horária. Mas o que podemos perceber até o momento com a leitura das documentações é que o professor estará disponível na escola para lecionar dentro de um Itinerário Formativo seja ele qual for.

Ciências Humanas

A discussão é enorme e está posta, praticamente a meses de acontecer na prática. O que esse artigo pretende é levantar a questão sobre o papel das Ciências Humanas na formação ética e cidadã da sociedade e qual está sendo o olhar dado a essa área de conhecimento. Visto que o discurso do Novo Ensino Médio se baseia em tecnicismo, mercado de trabalho e tecnologia.

Vestibulares, ENEM, irão se adaptar ao Novo Ensino Médio em que ritmo? Não temos essas respostas, o que pode se perceber é que o discurso da década passada, onde o jovem pobre da rede pública podia sonhar e almejar cursar uma Universidade por via de políticas públicas de inserção como o PROUNI, FIES, ESCOLA DA FAMÍLIA, etc, ficaram no passado.

A fala agora voltou a ser aquela já conhecida, jovem pobre deve fazer curso técnico e estar pronto a se inserir no mercado de trabalho assim que concluir a escola. Como concorrer num mundo onde o rico terá todos os Itinerários Formativos que desejar, enquanto o jovem da rede pública deverá fazer o que lhe for proposto e possível.

Enfim, onde iremos nos encaixar?

Até a próxima!

Referências:

https://pnld.nees.ufal.br/pnld_2021_proj_int_vida/componente-curricular/pnld2021-didatico-ciencias-humanas-e-sociais-aplicadas

SILVA, Mônica Ribeiro. Educação em Revista. Belo Horizonte|v.34|e214130|2018.

CORRÊA, Shirlei de Souza; GARCIA, Sandra Regina de Oliveira. “Novo ensino médio: quem conhece aprova!” Aprova? Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 13, n. 2, p. 604-622, abr./jun., 2018. E-ISSN: 1982-5587. DOI: 10.21723/riaee.v13.n2.2018.11469.

SOUZA, Raquel Aparecida; GARCIA, Luciana Nogueira de Souza; Estudo sobre a Lei 13.415/2017 e as mudanças para o novo ensino médio. Jornal de Políticas Educacionais. Vol 14, número 41, 30 de setembro de 2020. https://efape.educacao.sp.gov.br/curriculopaulista/ensino-medio/materiais-de-formacao-ensino-medio/

Governo lança Reforma do Ensino Médio

https://g1.globo.com/educacao/noticia/temer-apresenta-medida-provisoria-da-reforma-do-ensino-medio-veja-destaques.ghtml

Entenda a Reforma do Ensino Médio

https://g1.globo.com/educacao/noticia/entenda-a-reforma-do-ensino-medio.ghtml


Jessica Leme

Professora Mestre em História Cultural e Graduada em História Licenciatura na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Pesquisa História e Fotografia; Nova História Política; Atualmente leciona na Rede Pública do Estado de São Paulo.

4 comentários

Rosana · 31/03/2021 às 21:31

Li TD o conteúdo mas ainda assim ficou difícil de entender essa mudança
Mas um ótimo artigo parabéns

    Jessica Leme · 01/04/2021 às 09:42

    Rosana, cada unidade escolar de acordo com seu estado vai se organizar e denominar da maneira que achar melhor essas alterações, seria interessante propor a sua escola essa discussão pra que todos possam colocar em pauta suas dúvidas.

Edmerson Alves de Oliveira · 03/04/2021 às 12:20

Gostei muito do artigo sou professor de história e trabalho numa PEI e já vejo esse desmonte na área de humanas. Os pontos abordados no artigo foram precisos. Você é de Araraquara?

    Jessica Leme · 08/04/2021 às 10:27

    Oi, eu também trabalho numa PEI, sou de Itararé bem na divisa do estado com o Paraná…

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