Bruxas – As primeiras Feministas?

Publicado por Jessica Leme em

Construção Histórica e cinematográfica da imagem das Bruxas

Cena da série Sabrina, retratando o gato Salém mexendo em um caldeirão de Bruxas.

Nessa semana comemora-se o chamado Dia das Bruxas, no dia 31 de outubro. Grandes festas são realizadas em alguns países, como nos Estados Unidos e no México. Assim, fazendo alusão a seres de outro mundo, a espíritos malignos ou de pessoas já mortas.

Além disso, outra figura que ronda o imaginário da sociedade há séculos é a da Bruxa. Usada em fantasias no Halloween por vezes de maneira sexy, noutras de maneira monstruosa. Diante dessa dicotomia pretendo nesse texto fazer uma breve explicação de como foi criada a imagem da Bruxa a partir da Idade Média. Bem como, como a civilização Ocidental optou por retratá-la no cinema.

“E como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se tornam as agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as mulheres têm mais conivência com o demônio porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta”.

Malleus Maleficarum (Manual oficial da Inquisição)

Como se construiu a imagem das Bruxas durante a Idade Média?

A construção da imagem e imaginário sobre as bruxas vem se desenvolvendo no decorrer da História. Desde meados da Idade Média até os dias atuais. Suas ações, vestimentas, poderes são moldados de acordo com a sociedade na qual está inserida essa figura.

Antes de pensarmos na figura da bruxa, precisamos pensar em como se desenvolveu o pensamento sobre o que seria a “magia”. Segundo Cardini (1996), o ponto de vista cristão dividiu a magia em dois seguimentos. Assim, a “magia natural” seria relacionada com a investigação do universo. Ao passo que a “magia cerimonial” que teria a intencionalidade de prejudicar alguém.

A Magia

Nesse sentido, ainda segundo Cardini (1996), Santo Agostinho, um dos maiores teólogos da Igreja Católica, acrescenta que segundo a teologia cristã espíritos bons não entram em contato com os humanos. Em contrapartida, apenas espíritos ruins que querem causar malefícios aos vivos. Assim, desta maneira a bruxaria teria ligação com a chamada “baixa magia”, aquela que lida com espíritos maus.

Durante a Idade Média, a cultura se desenvolveu através da literatura latina o que obrigou Santo Agostinho a desenvolver o que conhecemos como demonologia. Então, segundo Cardini (1996), nesse estudo ele reforçou que todas as ações mágicas são provenientes do demônio.

Segundo Santo Agostinho, a incantatrix não sabe como utilizar a magia e a usa sempre para prejudicar algo ou alguém, ele descreve algumas ações como a metamorfose, onde a bruxa se transformaria em um animal como a coruja ou uma ave de rapina. Além disso, a bruxa teria a capacidade de em seu sono ter sua alma descolada do corpo, onde ela viajaria para fazer mal aos outros, além de ter conhecimento de ervas que poderiam até mesmo matar crianças.

Insegurança da Igreja que, com medo da heresia, perseguia velhas superstições das quais nunca, até então, havia cuidado; desastres climáticos, econômicos e sociais para os quais era necessário encontrar um “bode expiatório” a quem atribuir responsabilidade; novo e duro controle da sociedade pelo estado absolutista. Estas três circunstâncias, atuando ao mesmo tempo, foram a origem da caça às bruxas como da perseguição de outros marginais, inclusive os judeus.

(CARDINI, 1996, p.13).

A partir de então começaram as perseguições da Igreja em relação às bruxas, que passaram a serem acusadas de crimes como assassinatos, ou de ações mágicas, como a aparição em corpos de animais, ou reuniões em meio a florestas onde dançariam nuas ou estariam fazendo sexo com demônios.

As bruxas no cinema – Entre o Grotesco e a Hipersexualização

Certamente um aspecto que sempre chama a atenção quando falamos sobre a figura das bruxas dentro do contexto histórico são as características comuns dadas a essas mulheres. Características essas, por exemplo, a histeria, a hipersexualidade, por vezes retratadas como lindas e sexys, noutras trazem características grotescas, como narizes grandes com verrugas pelo rosto. Além disso, sempre estão aliadas a comportamentos considerados pecaminosos.

Elvira

No cinema a temática bruxaria é sempre retratada. Hoje, pensando no aspecto feminista da discussão, vou tratar do filme Elvira (1988), notadamente conhecido por jovens apreciadores da seção da tarde nos anos 90.  

A personagem Elvira que representa as bruxas de sexualidade livre.
Elvira (1988)

No filme protagonizado por Cassandra Peterson, a personagem Elvira é hipersexualizada. Desde as roupas até as ações da personagem, denotam um comportamento de sexualidade livre.

Segundo Valadares (2017), a personagem se classifica no que Michael Foucault considera feminismo radical, por demonstrar liberdade sexual, porém, a mesma indústria cinematográfica que demonstra essa vertente produz também a repressão sexual demonstrando domínio do patriarcado ao mostrar a personagem sendo criticada por seu comportamento o tempo todo.

Cena do filme Elvira, que retrata as Bruxas como mulheres sexys que despertam a inveja das outras mulheres.
Elvira (1988)

A Rainha Má

A autora faz um contraponto entre as personagens Elvira e a bruxa que protagoniza a madrasta da Branca de Neve, a Rainha Má. A personagem também demonstra em seu comportamento forte apelo a imagem bela e atraente, demonstrado através das falas com o espelho. Valadares (2017), destaca que nesse caso a personagem é descrita como perversa, amargurada, e segundo a autora isso estaria ligada a sexualidade da personagem.

Rainha Má

As Bruxas de Salem

Segundo Valadares (2017), no filme As Bruxas de Salem (1996) assim como no filme mais recente denominado A Bruxa (2016), outros aspectos da leitura sobre o feminino nesses personagens podem ser apreciados.

Cena do filme as Bruxas de Salem.
As Bruxas de Salem (1996)

Neles fica claro o uso da histeria em cenas como a das mulheres dançando nuas na floresta em As Bruxas de Salem, demonstrando estarem todas em transe.

No decorrer da trama, as personagens que estavam dançando nuas na floresta são convocadas a depor no tribunal de Salém. Quando os representantes do clero fizeram perguntas que as jovens não souberam responder, elas fingiram estar vendo o demônio, ficaram olhando para cima, desmaiaram. Segundo a autora essa cena representa o que seria o “delírio feminino…” (VALADARES, 2017, p. 07).

A Bruxa

A Bruxa (2016)

No filme A Bruxa (2016) a personagem principal oriunda da Irlanda, vem residir com toda a família na América em meados do século XIX. Ao se mudarem para uma casa próxima a uma floresta tem o irmão mais novo desaparecido, no decorrer da trama toda a família da protagonista morre.

Na trama, a personagem decidi vender a alma ao demônio e é nesse momento em que ela se encaminha para o interior da floresta e encontra uma porção de mulheres dançando nuas e em transe. Segundo Valadares (2017), a cena em que a personagem surge nua e coberta de sangue está relacionada a iniciação sexual dela, em que num sentido mais amplo teve que se tornar livre (sem família) para poder usufruir de sua sexualidade.

O filme “A Bruxa” apresenta e faz relação em vários momentos a tais características, principalmente ao erótico, uma referência que não está presente por acaso. Essas mulheres utilizavam o conhecimento popular detido para uma maior obtenção do prazer sexual. Um exemplo clássico é a origem da vassoura como acessório, entretanto não para os afazeres domésticos. As bruxas elaboravam trouxinhas com plantas alucinógenas que ao contato vaginal traziam a sensação de leveza e prazer, assim como relata Alves (2014). As vassourinhas ou trouxinhas traziam asas e provocavam voos, viagens alucinógenas. Aspecto abordado no filme em suas últimas cenas, no momento do encontro do clã de bruxas, irmãs agrupadas por uma história certamente de semelhança estrutural.

(ZERBINATI; BRUNS; p.78).

As Bruxas e a Liberdade Sexual

Segundo Zerbinati; Bruns (s.d), a associação da liberdade sexual à bruxaria estava fortemente ligada ao discurso cristão que associava o sexo ao pecado original praticado por Eva, sendo assim era necessário a repressão dos desejos luxuriosos a fim da salvar a humanidade da danação divina.

Em todos os filmes mencionados a figura da Mulher/Bruxa percorre caminhos parecidos, Bruxa/sexualidade, exacerbada em Elvira, Bruxa/Histeria, em As Bruxas de Salem, Bruxa/Inveja e amargura, na figura da Rainha Má, Bruxa/Demônio em A Bruxa.

Sabrina – A jovem Bruxa feminista?

Sabrina

A pouco tempo a Netflix estreou mais uma série com a temática de bruxaria, inspirada na personagem Sabrina. Surgida primeiramente nas páginas de quadrinhos nos anos 1960, pela Archie Comics.

A história da jovem bruxa já foi produzida pela TV e cinema diversas vezes. O seriado anterior intitulado Sabrina – Aprendiz de feiticeira era cômico, exibido durante as tardes na tv.

A série “O mundo sombrio de Sabrina” lançada em 2018 na plataforma de Stremming vem com uma nova adaptação totalmente diferente da antiga, onde Sabrina vive um ambiente sombrio.

Aspectos mais leves da série estão no fato da personagem viver conflitos adolescentes como o primeiro amor, bullyng na escola, problemas com amigos, etc. Mas boa parte da série é focada em rituais, figuras demoníacas, entre outros.

Dentro da nossa discussão sobre a construção da imagem das bruxas no decorrer da história, gostaria de chamar a atenção para a transformação da personagem ainda durante a primeira temporada.

Sabrina está para completar 16 anos, onde descobre que deverá assinar o livro da Besta e se entregar em definitivo ao mundo da magia. Assinar o livro da Besta significa entregar sua alma ao demônio.

Igualmente interessante, também seria estudarmos a imagem criada para representar o demônio na série, onde o mesmo sempre surge representado por um bode. Lembrando que já na Idade Média as mulheres consideradas bruxas, teriam segundo a cultura da época, o poder de se transformarem em bodes.

Enfim, a personagem Sabrina é desenhada a princípio como uma jovem adolescente normal, com dúvidas e rompantes de amor e ódio. Suas vestimentas condizem com a de qualquer adolescente normal.

A transformação de Sabrina

Diante de várias circunstâncias Sabrina é levada a aceitar a assinar o livro da Besta o que a transforma imediatamente. Sua transformação se dá por uma palidez na pele, cabelos que se tornam mais claros como platinados e surge nela um batom vermelho vivo.

Além claro de um novo guarda roupa muito mais voltado a cores vermelhas e pretas e com roupas justas e sexys.

Fotografia da Personagem Sabrina, representando as bruxas adolescentes do cinema.
O mundo sombrio de Sabrina

Mais uma vez a figura da Bruxa é desenhada com forte apelo sexual, mesmo numa personagem demonstrada até então como uma adolescente.

Vimos então através de vários exemplos cinematográficos e também na tv que a figura da Bruxa vem sempre representada como uma mulher que foge aos padrões patriarcais estando sempre ligadas a liberdade sexual, trazem uma figura que se veste e porta de maneira mais livre em relação a sociedade na qual está inserida.

Seriam as Bruxas feministas?

Nesse sentido, quando trago no título a pergunta sobre as Bruxas terem sido as primeiras feministas é uma provocação para refletirmos sobre como ainda hoje vemos a figura da mulher que luta para ter voz ativa na sociedade. Ainda somos taxadas bruxas?

Muita as vezes vemos publicações, falas, que denotam mulheres que se autodeclaram feministas de mulheres feias, amarguradas, mau amadas, destruidoras de famílias, assassinas de bebês quando se colocam a favor do aborto, entre outros.

Certamente, no passado as mulheres foram perseguidas e queimadas por usarem seu conhecimento de cura através das plantas e por ousarem crer que o poder divino provinha de seu útero, fonte de vida.

No entanto, hoje somos perseguidas quando questionamos padrões que ainda insistem em colocar mulheres como seres subservientes aos homens, não tendo direito sobre o próprio corpo e tendo perseguida sua sexualidade.

Que sejamos então todas bruxas – feministas!

Referências Bibliográficas:

CARDINI, Franco. Magia e Bruxaria na Idade Média e no Renascimento. Psicologia USP, v.7, n.1/2, p.9-16, 1996.

VALADARES, Aline. Feminilidades em disputa: uma análise das representações das bruxas no cinema ocidental. Centro de pesquisa em estudos culturais e transformações na comunicação.

ZERBATINI, João Paulo. BRUNS, Maria Alves de Toledo. RESENHA: A SEXUALIDADE FEMININA CONTEXTUALIZADA NO O FILME “THE WITCH”.

Malleus Maleficarum – O martelo das Bruxas


Jessica Leme

Professora Mestre em História Cultural e Graduada em História Licenciatura na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Pesquisa História e Fotografia; Nova História Política; Atualmente leciona na Rede Pública do Estado de São Paulo.

2 comentários

Edison · 29/10/2020 às 17:10

Fim da quarentena

Adriana · 29/10/2020 às 19:32

Muito bem escrito o texto! Parabéns!

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