Educação Antirracista : Repensando o currículo de História

Publicado por Jessica Leme em

Com a criação da Lei 10.639/03, que trouxe a obrigatoriedade do Ensino de História da África em todas as instituições de ensino públicas e privadas do Brasil, muitas práticas tiveram de ser repensadas e até mesmo novas precisaram vir a ser desenvolvidas.

No post de hoje trago alguns pontos de interesse do professor de História.

Seja para sua formação, para discussão com os pares ou mesmo para pensar ações dentro da escola junto a equipe pedagógica.

Educação Antirracista

Muito se tem falado em Educação Antirracista, mas o que seria?

Historicamente temos práticas dentro da educação que evidenciaram as desigualdades sociais e raciais em nosso país. Dessa maneira repensar o ensino de História assim como boa parte da discussão dentro da área das Ciências Humanas se faz urgente e necessária com o intuito de transformar estereótipos.

Como já citado pela autora Chimamanda, em uma célebre palestra a História da África acabou por ser tornar de certa maneira única… Num mesmo formato que se resume em evidenciar a pobreza, natureza selvagem, etc.

“É assim que se cria uma única história mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e é o que ele se tornará A consequência de uma única história é que ela rouba das pessoas sua dignidade Enfatiza o quanto somos diferentes, ao invés do quanto somos semelhantes” Chimamanda Ngozi Adichie

A proposta da Educação Antirracista é a de levar justiça para a educação. Segundo MOTA ( 2021), o ensino de História nas escolas brasileiras perpetuou o discurso das classes dominantes desde sua concepção.

O currículo oficial de História pensado a partir da História eurocêntrica, trouxe por gerações apenas a versão do homem branco sobre o domínio dos povos, do desenvolvimento da civilização moderna entre outros aspectos.

No caso brasileiro a situação segundo MOTA (2021), piora quando temos como governo um integrante da família real, mesmo após o processo de independência. Isso acabou por alicerçar ainda mais a visão branca e europeia de história nos bancos escolares. Dessa forma, populações negras e indígenas foram apagadas de seu papel formador e construtor do Brasil.

“O currículo de História é racializado em grande parte trata-se da construção da nação e das contribuições da população eurodescendente na cultura, economia, na política, nas artes, na organização social. No que tange à História Geral, o eixo norteador da seleção de temas tem sido a história européia. A presença negra ora aparece exclusivamente na condição submissa, ora na ambígua condição de resistente: à escravidão ou a modernização? (MOTA, 2021, p. 17)”.

A partir desse entendimento, nós enquanto professores não devemos nos desesperar em trazer novos conteúdos, temáticas acerca dos povos africanos, ressignificar aquilo que ensinamos é o primeiro passo.

Outro ponto importante da discussão trazida por MOTA (2021) é sobre darmos “cor” aos corpos aos quais estudamos, apresentamos e analisamos. Ou seja, precisamos além de dar nome, dar cor aos personagens históricos que trabalhamos em sala de aula. Nossas crianças negras precisam se ver, se reconhecer enquanto população com história e passado também de glórias.

História da África

Preciso estudar? Sim!

Boa parte dos professores graduados até a primeira década dos anos 2000 não tiveram dentro dos cursos de graduação de licenciatura em História e até mesmo em cursos de Bacharelado em História, alguma disciplina específica com a temática História da África.

Isso nos deixa deficientes enquanto profissionais?

Só se nos dermos por vencidos.

Diversos cursos de pós graduação, publicações científicas, congressos, canais, infinitas produções lançadas em redes sociais e canais na internet podem nos trazer mais informações sobre esse debate tão necessário e urgente.

Mas antes de nos dedicarmos a algo tão grande, podemos nos deliciar com algumas leituras atuais e de fácil compreensão que já nos deixam com munição para começarmos a mudança a partir do lugar de mais importância para nós, a sala de aula.

Kabengele Munanga

O livro Superando o Racismo na Escola, está disponibilizado no portal do MEC.http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/racismo_escola.pdf

Thiago Mota

O livro Ensino Antirracista na Educação Básica, foi lançado ainda nesse ano de 2021 e já está disponibilizado para downlouad. https://educacaointegral.org.br/reportagens/livro-gratuito-traz-praticas-de-educacao-antirracista-nas-escolas-e-na-formacao-de-professores/

Djamila Ribeiro

O livro Pequeno Manual Antirracista de Djamila Ribeiro, é um dos exemplos de rápida leitura. Porém, nao se enganem em relação a densidade da discussão trazida pela autora, esse livro é facilmente instrumento de discussão sobre a sociedade atual brasileira, bem como a construção histórica de nosso racismo.

Djamila Ribeiro

Mais um pequeno grande livro de Djamila Ribeiro, onde ela discute o espaço de fala da população negra dentro da sociedade brasileira. Um livro de muito valor para discussão dentro da área de ciências humanas como um todo.

Silvio de Almeida

O livro de Silvio de Almeida, destrincha a construção do racismo na sociedade brasileira, um livro um pouco mais denso, podendo ter trechos e provocações pinceladas para discussão em sala de aula com alunos do Ensino Médio.

Canais de conteúdo sobre Africanidades

Canal Preto
Canal África e Africanidades
Canal Futura – A cor da Cultura

Livros Didáticos e a História da África Idílica

Dentro dos materiais didáticos ainda precisamos problematizar quando o assunto é o capítulo dedicado à História da África.

Boa parte das publicações trás em seu meio um capítulo entre os livros do 6 e 7 ano dedicados aos Reinos Africanos, contemplando reinos do Mali, Gana e as vezes Congo. No Ensino Médio ainda é uma incógnita de como esses conteúdos serão abordados a partir do “Novo Ensino Médio”.

Mas a História da África fica presa nesses capítulos?

É importante como já citado nesse artigo que possamos dar cor aos corpos estudados, destacar o esplendor egípcio como reino negro, demonstrar a grandiosidade e especificidades dos reinos africanos anteriores a chegada dos europeus. Destacar a religiosidade africana, com seus deuses e costumes culturais.

Alguns currículos como o do Estado de São Paulo, já sugerem que em todas as habilidades a serem trabalhadas sejam contempladas discussões que insiram a população negra, indígena e por vezes feminina. Isso demonstra a necessidade da mudança no discurso histórico dentro das salas de aula.

Em momento algum essas populações ficaram a mercê da história brasileira, muito pelo contrário elas por muitas vezes foram as protagonistas dos fatos, porém, diante da produção historiográfica de cunho europeu não tiveram suas lutas contempladas.

É aí que entra o trabalho do professor/pesquisador, o de buscar novas leituras chamadas de decoloniais.

Nossos alunos não podem mais relacionar a História da África ao período escravocrata, nossos alunos não podem mais denominar as populações negras de escravas.

É nosso dever enquanto professores, educarmos para a compreensão de que as populações negras foram escravizadas, que nosso vocabulário carrega um racismo estrutural que deve ser desconstruído, nossas ações não podem mais estarem pautadas em esteriotipos.

No âmbito das relações raciais vividas no Brasil, é útil destacar: nenhuma pessoa branca, hoje, é responsável
pelos horrores do tráfico de pessoas negras, a escravização delas e as condições desumanas a que foram submetidas, no passado. Entretanto, todas as pessoas brancas, hoje, são herdeiras de privilégios atribuídos aos brancos e construídos desde a escravidão dos negros no Brasil, seja devido à manutenção de heranças dentro das famílias brancas, seja por não serem alvo dos preconceitos raciais que inibiram e ainda inibem o progresso escolar e profissional de pessoas negras. Assim, ainda que ninguém, hoje, seja responsável pelo erguimento deste sistema, somos todos responsáveis por combatê-lo, uma vez que usufruir das desigualdades estabelecidas continua sendo um privilégio branco e imoral.(MOTA, 2021, p. 19).

Racismo Estrutural

Homens brancos não perdem vagas de emprego pelo fato de serem brancos , pessoas brancas não são “ suspeitas ”
de atos criminosos por sua condição racial , tampouco têm sua inteligência ou sua capacidade profissional questionada devido à cor da pele .” Silvio de Almeida

Como nos ressalta MOTA (2021), o racismo estrutural orienta as relações de forma racializada, entendemos hoje que o conceito de raça já foi derrubado pela ciência a muito tempo, porém, socialmente falando esse conceito ainda existe e rege a sociedade dividindo brancos e negros.

Embora o conceito biológico de raça não exista para raças humanas, aos traços fenotípicos da população negra têm-se atribuído, ao longo do tempo, valores irreconciliáveis com a ideia de modernidade: violento, volúvel, menos inteligente, dado ao trabalho pesado. Aos corpos brancos, as características fenotípicas que os definem, por seu turno, têm sido valorizadas de forma positiva: sensível, inteligente, complexo, asseado. (MOTA, 2021, p.18).

Historicamente a cor da pele dividiu os brasileiros entre quem tinha ou não determinados direitos. A lei de terras é um exemplo clássico que deve ser sempre destacado como um dos pilares da desigualdade racial no país, assim como a proibição de crianças negras frequentarem a escola.

Essas ações do passado refletem em nosso cotidiano hoje.

Essa é uma das bases de discussão do racismo estrutural, ou seja, nossa sociedade foi alicerçada a partir da exploração da população negra e da ideia de superioridade do homem branco.

O racismo está tão entranhado na nossa sociedade e muito desse sentimento de normalidade veio através da falsa ideia de “democracia racial” criado por Gilberto Freyre.

Escola como espaço de transformação

Concluindo a proposta de hoje que é voltada aos colegas professores, penso que é preciso agirmos como nos pede Ângela Davis , “não basta que não sejamos racistas, devemos ser antirracistas”. E em nosso país marcado pela desigualdade social temos dentro das escolas públicas a grande maior parte dos alunos negros.

Que a escola seja de fato um espaço de transformação, que possamos mudar as estruturas do pensamento que ainda segrega. Isso perpassa por nós, nossos colegas professores até encontrar nossos alunos que irão levar adiante uma nova estrutura de pensamento.

Até a próxima!

Referências:

Ensino antirracista na Educação Básica: da formação de professores às práticas escolares [recurso eletrônico] / Thiago
Henrique Mota (Org.) — Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021.

Categorias: História

Jessica Leme

Professora Mestre em História Cultural e Graduada em História Licenciatura na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Pesquisa História e Fotografia; Nova História Política; Atualmente leciona na Rede Pública do Estado de São Paulo.

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