Propaganda Getulista: material para análise

Publicado por Caroline Dähne em

Certamente que quando o assunto é Era Vargas, é impossível não falar sobre como a propaganda getulista construiu a imagem do governante que foi a segunda pessoa no poder por mais tempo aqui no Brasil, perdendo somente para o Imperador D. Pedro II.

Ao total foram 18 anos e 6 meses no cargo de Presidente da República, desde a sua chegada ao poder através da Revolução de 1930 até 1945 nos 15 anos que chamamos de Era Vargas e, posteriormente, eleito democraticamente assumindo o mandato em 1951 até o seu suicídio em 1954.

Ainda hoje, algumas pessoas lembram dele como o melhor presidente da república que o nosso país já teve. O fato é, que independente do que o senso comum diga, Getúlio Vargas foi um governante muito controverso. Nesse sentido, a sua popularidade não ficou somente na memória dos seus antigos eleitores, seu governo é queridinho das questões de vestibulares e Enem, configurando-se num dos temas mais cobrados nas provas do país nos últimos anos.

Pensando nisso, trazemos hoje um material de análise produzido e distribuído pelo governo buscando realizar a propaganda getulista na década de 1940.

Montagem de imagens com desenhos de Getúlio Vargas, com o título da postagem: propaganda getulista.

Propaganda Política

Como professores de História, sabemos que a propaganda política acontece em diversos meios de comunicação de maneiras variadas. No entanto, nem todos os alunos têm essa percepção. Portanto, cabe a nós durante a aula de análise desse tipo de material, salientar que nem só de propaganda política partidária, como os famosos “santinhos”, se constrói a imagem de um governante.

Principalmente quando este já está no poder, aí qualquer tipo de manifestação na imprensa acaba se tornando uma oportunidade de construir uma imagem positiva de si mesmo.

Para trabalhar esse tipo de material em sala de aula é importante então, retomar com os alunos o que é propaganda e quais seus objetivos. Assim, lembrando que, em seu conceito, a propaganda visa influenciar opiniões e/ou comportamentos. Para isso, a propaganda política divulga ideias com mensagens direcionadas a alteração de atitudes ou até mesmo ao engajamento da população nas ações pró-governo.

Propaganda Getulista analisada em sala de aula

Amado ou odiado, o estadista construiu a sua imagem através do controle dos meios de comunicação, antes de analisar os materiais disponibilizados abaixo, sugerimos que o professor já esteja trabalhando a temática da Era Vargas nas aulas anteriores.

DIP

Para que a atividade fique mais completa, é importante que os alunos saibam como funcionou o período do Estado Novo e o que era o DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão que mantinha o monopólio das informações no Brasil desde a sua criação em 1939. 

Nesse sentido, comente ou solicite que os alunos realizem pesquisa sobre o departamento, evidenciando que as ações dele foram no sentido de controle e repressão da imprensa no nosso país durante o Estado Novo.

Além de reprimir as manifestações contrárias ao governo, é importante salientar que o DIP era utilizado na propaganda getulista principalmente para divulgar as ações presidenciais e construir uma imagem positiva de Getúlio Vargas.

Cartilhas escolares na propaganda getulista

De acordo com Reniane Souza (2018), as cartilhas foram um instrumento amplamente utilizado pela propaganda getulista durante o regime. Destinadas à um público infanto-juvenil e distribuídas nas escolas, as cartilhas visavam educar nos princípios do Estado Novo. Nesse sentido, elas tinham como premissa cultivar o amor pela pátria e criar uma espécie de culto ao líder.

Mas, afinal por que o público jovem?

Foi durante a Era Vargas que a educação no ensino primário se tornou obrigatória no Brasil, nesse período ocorreram também a nacionalização da educação com a proibição de escolas estrangeiras e a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 1930.

O direcionamento para a educação primária não se dava somente pelo fato, bastante ressaltado pelo governo, de que as crianças e os jovens eram o “futuro da nação”. Mas, também e principalmente, devido ao fato de que pela educação de crianças ser obrigatória no período e essas serem reprodutoras dos discursos quando estavam em casa, a mensagem chegaria em muitas pessoas.

Desse modo, é nesse processo que as cartilhas escolares foram utilizadas nas escolas na década de 1940 com o objetivo de construir uma propaganda getulista baseada na criação de uma imagem de “líder da nação” e de uma identidade nacional.

Análise de Imagem

Para realizar a análise com os alunos em sala de aula, ressaltamos alguns aspectos necessários em análises de imagens.

Primeiro passo:

Oriente para que os alunos percebam os elementos que compõem a imagem, tais como:

  • Imagem: pessoas, objetos, roupas, gestos, cenários, uso de cores, símbolos, entre outros.
  • Texto: expressões, gírias, frases escritas, falas.
  • Referência: autor, data e local de publicação.
Segundo passo:

Para que os alunos realizem a análise, elabore algumas questões norteadoras que eles terão que responder, como por exemplo:

  • Identifique o tema da imagem:
  • Quem são as pessoas que aparecem na imagem?
  • Qual o seu contexto histórico?
  • Quais foram as possíveis intenções do autor?
  • Qual situação está sendo retratada?
  • Quais as cores mais utilizadas na imagem, que objetivo está por trás dessa utilização?
Terceiro passo:

Além dos elementos visuais, essas imagens trazem também trechos de discursos do Getúlio Vargas. Sendo assim, é importante analisar o que essas falas pretendem, o professor pode direcionar a análise, pedindo que os alunos busquem identificar:

  • Para quem esse discurso é endereçado?
  • O que Getúlio Vargas esperava que o leitor fizesse?
  • Quais palavras sempre aparecem nos discursos?
Retomada

Certamente, a forma que o professor irá finalizar a atividade de análise depende dos objetivos da sua aula. Nesse sentido, sugerimos a divisão dos alunos em grupos e a entrega de uma folha diferente da cartilha para cada equipe. Assim, a partir da análise a atividade pode consistir na elaboração de Mapas Mentais ou murais que relacionem a Era Vargas com a propaganda getulista.

Cartilha: A Juventude no Estado Novo

Nesse sentido, hoje disponibilizamos aqui algumas imagens da cartilha “A Juventude no Estado Novo” produzida pelo DIP na década de 1940 e utilizada nas escolas no período. A cartilha, conforme ressalta Reniane Souza (2018), é composta de ilustrações com desenhos coloridos e trechos de discursos do presidente Getúlio Vargas em 24 páginas.

“Pai dos pobres”: a figura paterna
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “Crianças! Aprendendo, no lar e nas escolas o culto da Pátria, trareis para a vida prática todas as probabilidades de êxito. 

Só o amor constrói e, amando o Brasil, forçosamente o conduzireis aos mais altos destinos entre as Nações, realizando os desejos de engrandecimento aninhados em cada coração brasileiro.”

Culto ao líder:
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “Precisamos reagir em tempo, contra a indiferença pelos princípios morais, contra os hábitos do intelectualismo ocioso e parasitário, contra as tendências desagregadoras, infiltradas pelas mais variadas formas nas inteligências moças, responsáveis pelo futuro da Nação.” 

Direitos Trabalhistas:
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “A hora é de ação clara e direta, de realizações úteis, de trabalho fecundo e criador.

Dar todo o prometido à Nação, que espera diretivas sadias, conduzi-la sem tergiversações, resolver e executar acima de sentimentalismos e delongas, é o nosso dever. Havermos de cumpri-lo integralmente, porque o Brasil está de pé, vigilante e disposto a tudo empenhar na conquista do seu destino imortal!” 

Bandeira do Brasil: nacionalismo
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “Contemplai-a, agora, com maior e justificado orgulho. Ela tremúla só, única e dominadora, sobre todo o nosso vasto território. Símbolo do Brasil de hoje e de amanhã, bela e forte, afirma a unidade moral e material do nosso povo, numa síntese perfeita da sua existência e dos seus ideais de engrandecimento.” 

O papel do professor:
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “A palavra do professor não transmite apenas conhecimentos e noções do mundo exterior. Atua igualmente pelas sugestões emotivas, inspiradas nos mais elevados sentimentos do coração humano. Desperta nas almas jovens o impulso heróico e a chama dos entusiasmos criadores. Concito-vos, por isso, a utilizá-la no puro e exemplar sentido do apostado cívico infundindo o amor à terra, o respeito às tradições, e a crença inabalável nos grandes destinos do Brasil.”

Trabalho: ações do governo
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “No momento em que se providencia para que todos os trabalhadores brasileiros tenham casa barata, isentando-os dos impostos de transmissão, torna-se necessário ao mesmo tempo que, pelo trabalho, se lhes garanta a casa, a subsistência, o vestuário, a educação dos filhos.”

A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “Anima-me a certeza que toda esta multidão entusiástica, desde os jovens estudantes até as suas classes trabalhadoras e industriais é capaz de erguer comigo os alicerces da construção do Brasil Novo, que juramos empreender. Mas esse esforço que nos empenhamos em realizar, e estamos realizando, não se pode desprender das tradições e dos fatos predominantes de sua história. Haveremos de engrandecer o Brasil, para sermos dignos da herança que nos legaram nossos antepassados.” 

Trabalho técnico: criação do Senai
A Juventude no Estado Novo, DIP
Acervo CPDOC

Legenda: “… Haverá abundância de doutores e falta de técnicos qualificados; o homem competente no seu ofício era raro; o artesanato decaiu diante da máquina, sem que pudéssemos dispor de trabalhadores industriais.

O Governo Nacional resolveu empreender, a esse respeito, obra decisiva. Além de modernizar os estabelecimentos existentes, ampliando-lhes a capacidade e eficiência, iniciou a construção de grandes escolas profissionais, que deverão constituir uma vasta rede de ensino popular, com irradiações por todo o país.”  

Propaganda getulista: outros materiais de análise

O material completo faz parte do acervo digital do CPDOC, Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, e pode ser acesso em: https://expo-virtual-cpdoc.fgv.br/departamento-de-imprensa-e-propaganda-dip

Lá você encontra outros materiais e cartilhas sobre o governo de Getúlio Vargas no Brasil.

Logo do site Nas tramas de Clio acompanhada de frase.

Referências 

Material:

DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda. A Juventude no Estado Novo. 

Disponível em: https://expo-virtual-cpdoc.fgv.br/sites/expo-virtual-cpdoc.fgv.br/files/documentos/gv-133f_1.pdf

Bibliográficas:

CAPELATO, Maria Helena. Multidões em cena: propaganda política no varguismo e no peronismo. 2.ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

DAHNE, Caroline Loise. PATRIOTISMO E NACIONALISMO NO FRONT INTERNO: OS DISCURSOS DO JORNAL DIÁRIO DOS CAMPOS ACERCA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (PONTA GROSSA- 1942 E 1944). 2015. 110 f. Dissertação (Mestrado em História, Cultura e Identidades) – UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA, Ponta Grossa, 2015.

SOUZA, Reniane Silva de. MÍDIA E EDUCAÇÃO: ANÁLISE DAS IMAGENS DE CARTILHAS NA ERA VARGAS.

SOUZA, José Inácio de Melo. O Estado contra os meios de comunicação (1889-1945). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2003.

Desenho de uma ampulheta acompanhado de frase estimulando os comentários.

Caroline Dähne

Mestre em História, Cultura e Identidades e graduada em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Desenvolve pesquisas relacionadas a Segunda Guerra Mundial, Discursos jornalísticos, Patriotismo e Nacionalismo, Imprensa brasileira e Propagandas de guerra. Atualmente atua como professora de História na rede particular de ensino na cidade de Curitiba-PR.

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